Por volta das 17h15 desta quarta-feira (27), um dos criminosos com maior ficha corrida do Brasil desembarcou em Campo Grande vindo de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, em aeronave da Polícia Federal. Em Mato Grosso do Sul, Gerson Palermo seguirá direto para o Presídio Federal, onde volta a cumprir pena.
Antes de ficar seis anos foragido após ser solto por uma decisão judicial suspeita, o condenado por tráfico, sequestro de avião e envolvimento em crimes do PCC já havia sido beneficiado em Mato Grosso do Sul por outro “erro” do Judiciário local, que também abriu a porta do regime fechado estadual para um dos bandidos mais perigosos do País, segundo as forças de segurança. O primeiro caso de benefício ao homem condenado a mais de 120 de prisão foi registrado em 2010.
A palavra erro aparece como explicação formal para o episódio mais antigo. À época, ele já acumulava quatro condenações, que somavam 66 anos e 9 meses de prisão, por tráfico de drogas, associação ao tráfico, roubo, formação de quadrilha e sequestro de aeronave. Mesmo assim, uma decisão de outubro de 2010 permitiu que ele deixasse o Instituto Penal de Campo Grande e fosse para o complexo penitenciário da Gameleira, no semi-aberto, com as regalias de só voltar para dormir.
A correção veio só depois. Em 29 de novembro daquele ano, o juiz substituto da Primeira Vara de Execução Penal, Albino Coimbra Neto, mandou Palermo voltar ao regime fechado. Ele descobriu que uma nova condenação não havia sido considerada quando a progressão de regime foi concedida pelo magistrado Alexandre Antunes.
A conta que tirou Palermo do fechado estava incompleta. Segundo o despacho citado pela reportagem do Campo Grande News em 2010, ele havia cumprido 21 anos e 11 dias de prisão, já com remições. Mas, com a condenação que havia ficado fora do cálculo, ainda restavam 45 anos, 8 meses e 19 dias de pena a cumprir. Para esse volume de pena, a legislação exigia regime fechado.
O erro ocorreu mesmo com Palermo já tratado como criminoso de alta periculosidade, condenado por um dos crimes mais cinematográficos do país: o sequestro de um Boeing da Vasp em 2000, quando uma quadrilha roubou milhões em malotes bancários.
Dois anos antes, o histórico de Palermo no sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul foi incrementado por outro episódio sensível: a rebelião ocorrida no IPCG (Instituto Penal de Campo Grande), na véspera do Natal de 2008. O motim provocou a transferência de 33 presos e expôs, segundo reportagem do Campo Grande News à época, a capacidade de articulação do PCC (Primeiro Comando da Capital) mesmo com integrantes espalhados por unidades diferentes.
A apuração daquele ano apontava que a rebelião tinha como pano de fundo uma rixa iniciada em 2006, quando presos do IPCG se recusaram a aderir ao motim do Dia das Mães, coordenado pelo PCC e considerado um dos mais violentos da história penitenciária de Mato Grosso do Sul. Desde então, segundo a reportagem, internos do instituto passaram a ser “jurados” por integrantes da facção.
Venda de sentença
Doze anos depois, a história ganhou um capítulo ainda mais grave. Em 2020, Palermo voltou a sair da prisão, desta vez por decisão do desembargador Divoncir Schreiner Maran, do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). O magistrado depois foi acusado de vender habeas corpus. Palermo passou a ser considerado foragido desde então.
Em 2010, a justificativa formal foi uma falha no cálculo da pena, depois corrigida por outro juiz. Em 2020, o caso entrou no campo da suspeita de venda de decisão judicial. Mas o efeito prático foi parecido: em dois momentos diferentes, decisões tomadas em Mato Grosso do Sul aliviaram a situação prisional de um condenado tratado pelas autoridades como liderança criminosa.
A prisão desta semana recolocou Palermo no centro da cena. Segundo a Polícia Civil, a investigação que chegou até ele começou em outubro do ano passado, depois que ele teria ordenado o sequestro da própria filha, de 25 anos, em Campo Grande, por causa de uma disputa envolvendo R$ 50 mil, dinheiro que teria origem no narcotráfico. A jovem foi levada para um cativeiro nas Moreninhas e, após ser libertada, ajudou a polícia a chegar aos sequestradores.
A partir desse caso, a apuração avançou pelo Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), pelo Núcleo de Inteligência Policial da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), pela PF (Polícia Federal) e pela FELCN (Força Especial de Combate ao Narcotráfico da Bolívia). A troca de informações levou à localização de Palermo em Santa Cruz de la Sierra.
O histórico dele passa por tráfico internacional, uso de aviões e caminhões para transporte de drogas, condenação pelo sequestro da aeronave da Vasp e fuga prolongada após uma decisão judicial hoje cercada por suspeitas. Em 2017, Palermo foi apontado como principal alvo da Operação All In, da PF, contra tráfico internacional de drogas. Em 2019, integrantes de uma organização criminosa liderada por ele foram condenados pela Justiça Federal em Campo Grande pelo transporte de mais de 800 quilos de cocaína com origem na Bolívia.
