Criança implora em áudio: "Para, mãe" ao ver pai ser queimado

Um áudio obtido pelo Campo Grande News registra o desespero de uma criança ao presenciar a discussão que terminou com a mãe ateando fogo no próprio pai, na madrugada desta quinta-feira (30), em um imóvel na Rua Camila, no Bairro Danúbio Azul, em Campo Grande. O homem, de 37 anos, sofreu queimaduras de segundo grau e foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros até a Santa Casa. A mulher foi presa em flagrante por tentativa de homicídio.
"Por favor, não. Para, mãe... para, para. Não! Não!". A gravação, feita por um morador vizinho da residência, revela os gritos desesperados do menino enquanto a confusão acontecia. Segundo relatos de moradores ouvidos pela reportagem, as discussões entre o casal eram frequentes havia pelo menos três anos, mas nunca haviam chegado a esse nível de violência.
O autor da gravação, um morador de 35 anos que pediu para não ser identificado por medo de represálias, contou que decidiu registrar o momento para encaminhar o material à polícia, na esperança de agilizar o atendimento da ocorrência. "Eu fiquei desesperado aqui no fundo. Eu queria ir lá na porta bater, mas meu marido me segurava e falava: 'Não vai, porque é perigoso. Ela pode tentar alguma coisa com você'. Eles brigavam sempre, mas dessa vez foi pior. Muito pior. A gente gravou para mandar para a polícia e ver se chegavam mais rápido", relatou.
Conforme o boletim de ocorrência, equipes da Polícia Militar foram acionadas após denúncia de que um homem havia sido incendiado com líquido inflamável. Quando chegaram ao local, encontraram a vítima sendo atendida pelo Corpo de Bombeiros. O irmão do homem informou aos policiais que a cunhada havia jogado álcool e colocado fogo no marido.
Enquanto os militares prestavam apoio à ocorrência, a suspeita foi localizada dentro da residência. Em depoimento, ela afirmou que o casal e o cunhado consumiam bebidas alcoólicas quando uma discussão começou. Segundo a versão apresentada, ela discutiu primeiro com o cunhado e, em seguida, o marido passou a defendê-lo, gritando com ela e avançando em sua direção.
Ainda conforme o relato da mulher, ela segurava um recipiente com álcool, arremessou o líquido contra o companheiro e, em seguida, utilizou um isqueiro para atear fogo. Ela afirmou que as chamas foram apagadas com auxílio de um pano e do próprio filho do casal, que presenciou toda a cena. Depois, disse ter descartado a garrafa de álcool e permanecido na residência aguardando a chegada da polícia.
Diante da confissão de que lançou o líquido inflamável e provocou o incêndio de forma voluntária, os policiais deram voz de prisão à mulher, que foi encaminhada à Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher). Ela não apresentava lesões aparentes. O homem foi levado à Santa Casa com queimaduras de segundo grau. Até a publicação desta reportagem, não havia atualização oficial sobre o estado de saúde dele.
Moradores afirmam que as brigas entre o casal eram recorrentes e costumavam acontecer durante a madrugada. Segundo eles, discussões, gritos e ofensas já faziam parte da rotina da vizinhança, mas ninguém imaginava que os conflitos terminariam em uma tentativa de homicídio na frente da criança.
O imóvel onde ocorreu a tentativa de homicídio funciona como garagem, lava-jato e tapeçaria pertencentes ao casal. O endereço, porém, já era conhecido pelas forças de segurança por ter sido alvo de uma operação contra o tráfico de drogas em dezembro do ano passado. Na ocasião, equipes do Batalhão de Choque apreenderam aproximadamente uma tonelada de maconha escondida em um caminhão carregado com cascos de garrafas. Cinco pessoas foram presas durante a ação.
Segundo a investigação, a garagem era utilizada como ponto de apoio para o tráfico de drogas. A operação começou após denúncia anônima informando que um caminhão descarregaria entorpecentes no local. Durante a ação policial, moradores relataram intensa movimentação no imóvel e disseram ter ouvido o barulho de vidros sendo quebrados. Dois suspeitos armados tentaram fugir pelos quintais de casas vizinhas, chegaram a invadir uma residência onde havia crianças e escaparam pelos fundos. Outros três homens acabaram presos no imóvel. A investigação ficou sob responsabilidade da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
Agora, pouco mais de sete meses depois da operação, o mesmo endereço voltou a mobilizar policiais e bombeiros, desta vez por causa da tentativa de homicídio que deixou um homem gravemente ferido e teve o próprio filho do casal como testemunha da violência.

