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Raúl Jiménez marca de cabeça

Por Diário de Goiânia · · 4 min de leitura

Um repentino golpe seco rompe o crânio como se fosse um ovo pré-histórico. A pedra calva se racha em forma de raio: perda instantânea de consciência e o sono incerto se chama coma, como uma nuvem. No caso de um já heroico centroavante, o milagre se concretiza anos depois, ainda com uma faixa acolchoada que abraça suas têmporas e com o doloroso custo de perder o pai três meses antes de acertar uma cabeçada fulminante, girando a testa para baixo para que o gramado vire tapete e o gol exploda na querida rede dos séculos. Oitenta mil almas no Azteca para um remate perfeito - de cabeça e de conto - do jogador que aponta para o céu paterno.

No caso da minha irmã, a rachadura que abriu seu crânio em um absurdo acidente automobilístico, hoje há um ano, também a mergulhou em meses de coma, nuvem de confusões da qual acordou há poucos meses em seu milagre indescritível para descobrir outra dor adicional: a morte de nossa mãe que, apenas um ano após seu velório, ronda como sombra no mesmo instante em que sua filha volta a ser a menina de sempre, agora avó de belos netos. Camiseta verde e olhos de papel voando, cabeçada milagrosa a caminho de poder lembrar toda sua memória intacta para gritar o mesmo maldito grito de "gol!" que irradia da pequena área da pálpebra dianteira que chora comigo.

O México está de cabeça para baixo: uma maré massiva de professores e trabalhadores da Educação, fortalecidos na trincheira histórica do Governo que agora ocupa o Palácio, reivindicam promessas não cumpridas juradas em campanha e, por isso, paralisam a vida pública. As praças são blindadas com cercas, as pistas são tomadas pela força pública, os outrora militantes jantam no luxuoso Castelo rodeado de bosque e a cavalaria rústica alinha cassetetes contra a dolorosa meada de mães cujo único delito é buscar até o cansaço as almas e corpos de mais de 100.000 filhos desaparecidos que ficaram sem vida e sem cabeças.

O mundo também está de cabeça para baixo: um país que é sede poderosa de campeonato bombardeia sem piedade outro país (convidado para tal torneio) no mesmo dia em que decretou um cessar-fogo em uma guerra que dura meses, dia após dia, somando hostilidades tendo supostamente concluído desde o primeiro dia e primeiros bombardeios do conflito. Donald Trump diz tudo o que desdiz e desfaz tudo o que faz para que todo feito seja desfeito e descaramento de um deplorável desastre.

O tempo está de cabeça para baixo em uma quinta-feira já não anônima na qual as equipes da África do Sul e do México repetem a partida inaugural da Copa do Mundo de 2010 com outros jogadores em campo e respectivos treinadores que já haviam se enfrentado como jogadores na Copa do Mundo de 1986 (um com a Bélgica e Aguirre com o México). Hoje mesmo, o mesmo Estádio Azteca se chama Cidade do México (passando pelas siglas de um banco) sem deixar o intacto Partenon de Pelé da Copa de 1970 e o Monumento Maradona da Copa de 1986. O tempo complicado que se desdobra com os milhares de chapéus charros de papel que voam das alturas do Azteca, dos lugares caríssimos dos ingressos ditos mais baratos para as platinadas arquibancadas dos poderosos e endinheirados que pagaram o indizível para se fotografarem com seus próprios telefones.

Tão de cabeça para baixo o tempo que Shakira nem parece, que Salma Hayek atua de primeira-dama e que a música que fez o mundo cantar desce como Maná do pretérito onde ninguém tarareia J Balvin. O espaço também está de cabeça para baixo ali onde uma mulher astronauta contempla invertida a querida celebração de milhões de mexicanos que eletrificam a comemoração de dois gols (a cabeçada milagrosa e o obus nacionalizado mexica que nos lembra nossa negritude de séculos). Tempo e espaço na agora chamada CDMX que parece ressuscitar o antigo Distrito Federal ao pé da Coluna da Independência onde a ronda das gerações desafiam o temporal de dilúvio intemporal, as verdadeiras expectativas da equipe nacional e a ordem cósmica dos planetas ou orçamentos, pois por hoje se abatem todas as quadrículas, se assinam todas as sincronias e se dobram as lanças por obra e graça do delírio inexplicável, explosão efêmera que jamais se esquece.

Porque isso do futebol ganha de tudo por uma cabeça, porque corta por um tempinho a cabeça dos tiranos, dos títeres transnacionais das tarifas e dos teimosos cabeçudos ignorantes pelo giro hipnótico dessa esfera como planeta onde se confirma a redondeza de Deus e tanta maravilhosa fantasia milagrosa, como para perder a cabeça.

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