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Bagre Fagundes: legado do Canto Alegretense

Por Diário de Goiânia · · 3 min de leitura

Euclides Fagundes Filho, o Bagre Fagundes, morreu neste domingo (2) aos 86 anos. Ele teve diversas ocupações ao longo da vida: advogado, vereador, bancário, árbitro de futebol, colunista do Diário Gaúcho e músico. Com sua gaita quatro baixos, compôs alguns dos maiores sucessos do cancioneiro gaúcho.

Bagre nasceu em Uruguaiana, em 3 de outubro de 1939, mas cresceu em Alegrete. Era filho de Euclides Fagundes (1899-1981) e Florentina Fagundes, a Mocita (1902-1990). Teve seis irmãos e cinco irmãs. Ele definia a mãe como uma professora que ensinava tudo. O pai, apaixonado por música, era considerado um grande dançarino e teria conquistado Mocita pela dança.

O artista sempre recordava um episódio de infância: encontrou um maço de dinheiro na escola e o pai o fez devolver à diretora. "Estava fazendo conta em quantas matinês ia ir com essas notas. Saí amaldiçoando meu pai. Fui à escola e devolvi. A diretora me disse: 'Teu pai é gente muito boa, tem que respeitá-lo'", contou em entrevista a Zero Hora em 2023.

O pai promovia em casa a Hora da Arte. Quando recebiam visitas, antes do jantar, as filhas declamavam e os filhos cantavam. O apelido Bagre foi dado por seu irmão João Batista, ainda na juventude, depois que Euclides pescou um enorme jundiá no rio Ibirapuitã.

Carreira e família

Após o Exército, Bagre virou bancário no Banrisul e foi morar em Rosário do Sul. Lembrava desse período como sua melhor fase como jogador de futebol. "Fui artilheiro. Era visado pelos adversários, me davam pau", orgulhava-se. Também teve uma carreira breve como árbitro no futebol amador.

Mais tarde, estudou Direito, virou advogado e circulou pela política. Foi vereador e candidato a prefeito em Alegrete. Sempre alinhado à esquerda, foi filiado ao PTB na época de Leonel Brizola e ao PDT.

Bagre foi casado com Marlene Fagundes por 64 anos, com quem vivia em Porto Alegre. "Sempre fui louco pela minha namorada. Continuo apaixonado pela minha 'véia'", disse. Dessa união nasceram Euclides (Neto), Ernesto, Luciana e Paulinho. Quando os filhos cresceram, começou a cantar com eles nas festas da família.

Ele fez parte do grupo Os Angüeras e depois criou o Grupo Inhanduy com Neto, Ernesto e Paulinho. Esse projeto foi o embrião de Os Fagundes, que também envolveu seu irmão Antonio Augusto Fagundes (1934-2015), o Nico, lançado oficialmente com o CD de 2002. Com o Grupo Inhanduy, gravou a primeira versão de Canto Alegretense, composta com Nico em 1980. Também se destacam Origens, tema do programa Galpão Crioulo, e Oração à Terra.

Após a perda de Nico, em 2015, Paulinho completou o quarteto de Os Fagundes. Bagre sentia responsabilidade ao se apresentar com os filhos. "Sempre tenho medo de falsear ou errar alguma coisa, ou não cumprir o roteiro estabelecido. Me sinto sobrecarregado. Sem falsa modéstia, me sinto um pouco abaixo deles", relatou em 2023.

Paixões e legado

Bagre era torcedor fervoroso do Inter. Também tinha orgulho de ser gaúcho. "Se a gente nasceu no Rio Grande, Deus nos abençoou", disse ao Diário Gaúcho em 2021. Ele teve uma coluna no jornal chamada Gauchesco & Brasileiro nos anos 2000. "O que é ser gaúcho? Para mim, é um sentimento. Tem quem não seja nascido no Rio Grande do Sul e seja mais gaúcho do que muita gente nascida aqui", ponderou.

Era um artista eclético, aberto a outros estilos. "Não há como não gostar do samba. Participei até de festival de marcha de Carnaval. Temos Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Noel Rosa, isso sempre fez parte da nossa formação cultural. Djavan, como não gostar? Gil é um gênio. Como não gostar de um Chico Buarque?", afirmou.

Nos últimos anos, Bagre rodou o mundo com os filhos espalhando o Canto Alegretense. Precisou desacelerar para cuidar da saúde. "Tenho histórias que, se for contar, são de não acreditar. Agora estou resignado, tranquilo, enfrentando as situações que vêm com a idade. Sempre muito apoiado pela família. Só posso agradecer a Deus por tudo que me deu", refletiu.

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