Localizada entre a Serra da Bodoquena e a planície pantaneira, uma área de aproximadamente 52 mil hectares pode ser transformada em um REVIS (Refúgio de Vida Silvestre) em Mato Grosso do Sul. A proposta abrange o Delta do Salobra e sua foz com o Rio Miranda. Prioriza áreas de maior relevância ambiental, como Reservas Legais, APPs (Áreas de Proteção Permanente), áreas inundáveis, remanescentes nativos e regiões de baixa aptidão agrícola.
Conduzido pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), o projeto está em fase consultiva com proprietários e comunidades. O documentarista e presidente-fundador do IDS (Instituto Delta do Salobra), Maurício Copetti, disse que este é “o momento em que a autarquia apresenta a proposta e esclarece o que está em análise, seus limites e quais garantias precisam estar claras caso o processo avance”.
Copetti e outros proprietários participaram na segunda-feira (27) de uma reunião com o ICMBio. Segundo ele, o processo busca esclarecer limites, regras e garantias da unidade de conservação em área considerada prioritária para proteção ambiental.
Segundo Copetti, a proposta não é recente. O MMA (Ministério do Meio Ambiente) já reconhece a região como área de “altíssima prioridade para conservação” há anos. Em 2024, após oficina técnica nacional, o território foi incluído entre as áreas prioritárias para novas unidades de conservação. O Instituto aprofundou levantamentos socioambientais e socioeconômicos, ainda em andamento, para sustentar a proposta.
Riquezas ambientais
Os estudos revelam um mosaico ambiental contínuo de reservas legais e áreas de preservação permanente conectadas entre propriedades privadas, remanescentes de vegetação nativa, morrarias e áreas de baixa aptidão agrícola. Trata-se de um corredor ecológico natural que liga a Serra da Bodoquena ao Pantanal, pelo território indígena Kadiwéu e Parque Nacional da Serra da Bodoquena.
Para Copetti, essa configuração fundamenta a escolha pelo REVIS. Diferentemente de modelos mais restritivos, o REVIS permite propriedades privadas, mantém atividades econômicas e abre espaço para ecoturismo. “A pecuária presente foi considerada compatível com essa categoria”, explicou.
A área em análise soma 52 mil hectares, abrangendo Bodoquena e Miranda. O número pode ser ajustado. Estima-se que entre 30 e 40 propriedades rurais estão no perímetro, dependendo de confirmação.
Protagonismo
O IDS defende transformar proprietários rurais em protagonistas. A formalização como unidade de conservação pode ampliar o acesso a financiamentos como PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), com visibilidade internacional.
Copetti destacou que os produtores locais já conservam o território há décadas. A proposta reconhece e fortalece esse papel, combinando viabilidade econômica e conservação.
A região está em corredor ecológico binacional que conecta quatro biomas: Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco paraguaio. Essa diversidade atrai investimentos em conservação.
“Esses modelos exigem governança, segurança institucional e tempo”, afirmou Copetti, que já dialoga com especialistas em finanças da conservação.
Ecoturismo
Paralelamente, há a ideia de um corredor ecoturístico entre a Serra da Bodoquena e o Pantanal. A iniciativa foi apresentada à Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul.
O modelo prioriza turismo de baixo impacto, com experiências ajustadas à capacidade de cada área. Na comunidade Salobra, o IDS e o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas) desenvolvem um projeto de turismo de base comunitária, com mapeamento de atrativos, qualificação profissional e fortalecimento da associação local.
A comunidade Salobra já tem restaurantes, pousadas, barcos e o Rio Miranda. Há expectativa de melhorias em infraestrutura. Empreendimentos turísticos como Projeto Salobra, Rio Azul, Nadirtur e pousada Refúgio da Ilha já operam na área proposta. Outros demonstram interesse.
Ao sul, fora da área em estudo, o turismo é consolidado na Serra da Bodoquena, com conexão a Bonito e Jardim. A proposta integra esses destinos, incluindo propriedades rurais, comunidades, guias, artesãos e produtores. A iniciativa também dialoga com projetos no território Kadiwéu.
Diálogo
Na reunião com o ICMBio no dia 27, proprietários questionaram aspectos jurídicos e práticos: autonomia sobre as terras, regras do plano de manejo, fiscalização, documentação, continuidade das atividades e venda de propriedades. As dúvidas foram consideradas legítimas pela instituição, que afirma acompanhar o processo para garantir as salvaguardas.
