A elite política da Nova República no Brasil é frequentemente lembrada por seu papel na luta contra a ditadura militar que durou de 1964 a 1985. Essa narrativa se tornou um marco na história do país, onde muitos políticos e líderes se apresentaram como defensores da democracia, enfrentando os regimes autoritários da época. Com o tempo, essa história foi revisitada pela esquerda, que tenta defender os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e, sempre que possível, relacionar os críticos do seu legado a períodos sombrios como os anos de chumbo e o Ato Institucional Número 5 (AI-5).
No entanto, essa abordagem é vista como hipocrisia por alguns. Muitos dos que agora ocupam cargos de destaque, que foram ex-guerrilheiros ou militantes nostálgicos daquelas épocas, buscavam votos e o respaldo do povo para defender suas ideias. Um exemplo recente é o presidente da Câmara, Hugo Motta, que em um discurso comemorativo pelos 40 anos da redemocratização, fez declarações que negavam qualquer forma de censura ou repressão durante a ditadura. Ele afirmou que o Brasil não vivenciou jornais censurados, vozes silenciadas, ou perseguições políticas, numa tentativa de relembrar o que considera um período de civilidade e respeito.
Enquanto isso, outros políticos que aparecem na cena atual parecem ter abandonado a ideia de que a democracia deve ser defendida com argumentos legítimos. Eles insistem em sua posição como defensores da liberdade, sem terem sido escolhidos pelos eleitores para fazer esse tipo de defesa.
Recentemente, durante um julgamento em que se analisou uma alegação de tentativa de golpe de Estado em 2022, a ministra Cármen Lúcia falou com ênfase sobre o papel destrutivo das ditaduras, afirmando que “ditadura mata”. Ela declarou que essas formas autoritárias de governo não apenas atacam a democracia, mas também resultam em torturas e assassinatos. Cármen ainda recomendou que os ouvintes estudassem a história do golpe de 1964, relacionando-o ao que ela considera um contínuo ataque à democracia, que perdura até os dias atuais.
Na mesma linha de raciocínio, Flávio Dino, um político que também participou do debate, enfatizou que golpes têm consequências mortais, e mesmo que não tenham ocorrido mortes visíveis no começo de uma crise, a violência pode se manifestar de diversas formas posteriormente. Ele também mencionou o caso de um prisioneiro, Cleriston Pereira da Cunha, que morreu durante a detenção, elevando questões sobre a justiça no trato com os detidos.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm defendido uma reflexão constante sobre as experiências passadas com regimes autoritários para que erros semelhantes não sejam repetidos. No entanto, críticos apontam que, assim como os militares que tomaram o poder em 1964 sem o apoio da população, os atuais juízes e autoridades acreditam ter a missão de proteger a democracia de uma suposta extrema direita, agindo com poderes que não lhes foram outorgados. Isso se traduz em práticas questionáveis, como censura prévia e perseguições políticas.
Assim, há um discurso entre os políticos da atualidade sobre os riscos do autoritarismo, mas muitos acreditam que eles próprios perdem de vista o verdadeiro significado de defender a liberdade e a democracia, ao agirem de maneira semelhante aos autoritários que criticam.