14/03/2026
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Novela em Goiás tem elenco com poucos goianos e negros

Globo deve valorizar artistas locais em produções fora do eixo Rio-São Paulo

A nova novela das 19h da TV Globo, intitulada ‘Coração Acelerado’, tem como cenário o estado de Goiás e busca explorar a cultura sertaneja contemporânea, trazendo à tona uma identidade regional rica e reconhecível. No entanto, ao analisar o elenco principal, percebe-se uma falta de representatividade. Dentre os protagonistas, apenas um ator, Filipe Bragança, natural de Goiás, representa a região.

Apesar do estado servir como pano de fundo, as vozes e experiências locais estão em grande parte ausentes na trama. O Centro-Oeste brasileiro é mencionado, mas os personagens que o representam vêm de fora, levantando a questão: até quando as novelas continuarão a retratar locais sem incluir seus verdadeiros representantes?

Esse problema não é novo. A televisão tem um histórico de escolhas que levantam questões sobre a veracidade das narrativas. Por exemplo, na novela ‘Segundo Sol’ de 2018, que se passava em Salvador, a falta de atores locais e a predominância de um elenco branco geraram críticas. Em um estado onde 80% da população se identifica como negra, a ausência de representatividade foi vista como uma falha significativa.

Outra situação equivalente ocorreu em ‘Sol Nascente’ (2016), onde um ator de origem europeia foi escalado para interpretar um personagem japonês, ignorando a rica presença asiática-brasileira no país. Esses casos evidenciam uma prática comum na televisão: a diversidade é mencionada como tema, mas não se reflete nos elencos.

A falta de representatividade torna-se superficial, como se a TV tratasse a pluralidade do país como um cenário para ser explorado, mas não como parte das histórias que conta. Analisando essa questão, muitos defendem que as escolhas artísticas devem privilegiar atores reconhecidos, geralmente brancos e de sotaques neutros. Essa lógica, que marginaliza atores locais, interfere na qualidade das produções e na autenticidade das narrativas.

Um exemplo positivo foi a escolha de Edvana Carvalho para o papel de Inácia no remake de ‘Renascer’, onde, apesar de não ser conhecida nacionalmente, tinha sólida trajetória na Bahia, refletindo a cultura local de forma mais fiel e recebendo aplausos do público.

É fundamental que a direção de elenco e os produtores abram espaço para uma diversidade verdadeira, que reflita as diferentes origens e realidades do público brasileiro. O público não é homogêneo e merece ver sua pluralidade nas telas.

A escolha de Goiás e do sertanejo na novela não aconteceu por acaso. Há anos, a Globo busca conquistar o público do Centro-Oeste, onde, muitas vezes, a audiência é menor em comparação ao Sudeste. Em 2014, a novela ‘Em Família’, que se passava em uma cidade goiana, teve baixa audiência e foi encurtada. A emissora tenta agora, com ‘Coração Acelerado’, se aproximar de uma identidade mais tradicional e conservadora que ressoe com o público local.

Contar histórias de diversas regiões se tornou essencial para a estratégia da emissora, mas essa descentralização ainda não reflete quem realmente vive nessas áreas. Portanto, a inclusão de artistas locais é um passo necessário para representar a verdadeira diversidade cultural do país.