O burnout é uma realidade, e chegar aos 50 anos também é. Quando me aproximei dessa nova fase da vida, percebi que precisava de um tempo para mim. Trabalhando como assistente social e vivendo na agitada Nova York, sentia que a rotina estava me consumindo. Anseio por viajar e recarregar minhas energias me empurrou a tomar uma decisão: era hora de tirar uma licença.
Tirar uma licença do trabalho, embora comum em outros lugares, ainda é um conceito raro na minha área e em muitos setores nos Estados Unidos. Minha experiência pessoal, tendo perdido meus pais cedo e trabalhando com famílias em situações de luto, reforçou em mim a certeza de que a vida é curta e deve ser vivida plenamente.
Imaginar tudo isso foi fácil, mas conseguir colocar em prática foi um desafio. Eu gostava de muitos aspectos do meu trabalho e da minha vida. Havia iniciativas que criei, como uma loja comunitária e um programa de compostagem, que me traziam alegria. Além disso, adorava dançar e participar de eventos pela cidade. Contudo, o sentimento de estagnação, o burnout e a vontade de aventurar-se foram mais fortes. Então, mesmo sem ter um plano claro para a licença, decidi que era hora de me desligar do trabalho.
Essa decisão foi transformadora, mesmo que minha última jornada no trabalho só tenha ocorrido seis meses depois. Em janeiro de 2023, minha jornada começou. Sem filhos ou pais idosos para cuidar, senti que estava livre de responsabilidades e pronta para viajar na nova fase da minha vida, cheia de energia positiva e disposição.
Usei as milhas de voo que acumulei para comprar uma passagem de ida para a Índia, sem saber quanto tempo iria ficar ou para onde iria a seguir. Despedi-me do meu aluguel, pois um amigo aceitou ficar no meu apartamento durante minha ausência. Assim que cheguei ao exterior, tomei a decisão de aproveitar o transporte público de baixo custo, embarcando em uma longa viagem de ônibus de 24 horas de Kathmandu a Delhi. Em uma das viagens, sentei-me no colo de uma criança, cercada por sacos de arroz e outros passageiros durante um percurso lotado rumo a Muktinath, no Nepal.
Assim como na minha vida em Nova York, eu busquei viver de maneira simples e consciente. Isso significava optar por bicicletas, acampar, cultivar alimentos, fazer trabalho voluntário, coletar frutos e cozinhar em casa, vestindo roupas de segunda mão. Minha formação em serviço social me ajudou a manter uma mentalidade aberta enquanto explorava novos lugares.
Durante minha estadia no Nepal, fiz parte da família Lohani, onde trabalhei numa fazenda e saboreei pratos caseiros, como o dal baht, uma combinação deliciosa de arroz e lentilhas. Também participei de festivais locais, como o de plantio de arroz e a cerimônia de alimentação de arroz de um bebê.
Minha viagem foi marcada por um ritmo calmo, cobrindo uma diversidade de lugares, incluindo o Nepal, Índia, Europa Oriental e Ocidental, Oriente Médio e diversas regiões dos Estados Unidos. Um amigo me acompanhou em uma trilha pelas montanhas da Svaneti, na Geórgia, enquanto conheci novas pessoas em encontros na Alemanha, em festivais na República Checa, e participei de uma conferência na Croácia, além de uma viagem de canoa no rio Green, em Utah.
No dia do meu 50º aniversário, não recebi abraços, telefonemas ou mensagens de texto. Meu celular estava guardado em uma gaveta no belo Mosteiro Kopan, no Nepal, onde passei 10 dias em silêncio, aprendendo, meditando e refletindo com pessoas de todo o mundo. Aquela experiência foi perfeita.
Essa licença não foi apenas um intervalo da rotina, mas sim uma transformação na maneira como eu via a vida. Dois anos depois, voltei para Nova York. Embora ainda ame a cidade, continuo a me sentir desiludida com a rotina frenética e o ritmo acelerado. Essa viagem me ensinou a priorizar viver plenamente ao invés de apenas sustentar um modo de vida.