PCC está presente em metade dos presídios de Mato Grosso do Sul

O sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul é uma peça central na estrutura do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Estado. Planilhas apreendidas em 2020, durante a Operação Ponto Cego, mostram integrantes que entram formalmente na facção dentro de presídios, circulam por diferentes unidades e depois aparecem ligados a funções de comunicação, disciplina, finanças e comando territorial.
O relatório da operação indica que, em 2020, o PCC já estava presente em sete presídios de Mato Grosso do Sul e que faccionados foram mapeados em 16 municípios. Atualmente, conforme o secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, pelo menos 50% dos presídios do Estado têm presença de integrantes ou simpatizantes de facções criminosas. Segundo ele, a predominância é do PCC, mas o Comando Vermelho (CV) também atua nas unidades. Videira afirma que a superlotação aumenta a vulnerabilidade dos presos à cooptação e que as duas facções disputam rotas do tráfico de cocaína vindas da Bolívia e do Paraguai.
Mato Grosso do Sul tem 41 unidades penais administradas pela Agepen, conforme o Plano Estadual de Trabalho e Renda 2025–2026. Dados recentes da agência mostram 18.875 internos no sistema prisional, entre regimes fechado e semiaberto. Desse total, 15.096 homens e 997 mulheres estão no regime fechado, enquanto 2.665 homens e 117 mulheres cumprem pena no semiaberto.
Videira não apresentou números absolutos de integrantes do PCC e do Comando Vermelho dentro das unidades e nos municípios. Segundo ele, o acompanhamento é feito pelos setores de inteligência, mas a identificação é dificultada porque as facções orientam seus membros a não declarar vínculo com os grupos. Assumir formalmente a ligação com uma organização criminosa pode trazer reflexos no processo penal, o que estimula a ocultação dessa condição.
Conforme o relatório da Operação Ponto Cego, nas fichas cada integrante pode ter registrados a data e o local do chamado “batismo”, a cidade de origem, a área de atuação, as funções exercidas e as “últimas faculdades”, expressão usada para indicar presídios e estabelecimentos penais pelos quais passou. Os arquivos foram encontrados em um telefone apreendido em julho de 2020. Havia 426 cadastros atribuídos à facção. A partir do cruzamento dessas informações com bancos policiais e penitenciários, o Gaeco afirmou ter identificado 110 integrantes, dos quais 100 foram denunciados.
Batismo e trajetória
O “batismo” aparece nas planilhas como a entrada formal do integrante na organização. Em vários casos, o local informado coincide com a unidade onde a pessoa estava presa naquela data. Um homem identificado como “Koringa”, também chamado de “Sheik”, tem o ingresso registrado em 11 de junho de 2018, em “2 Irmãos”. O cruzamento feito pelo Gaeco aponta que ele cumpria pena em regime fechado na Penitenciária de Dois Irmãos do Buriti. A ficha registra passagens pela própria unidade, pelo Estabelecimento Penal de Coxim e pelo EPJFC, em Campo Grande. Depois, “Koringa” aparece na função de “Salveiro da Disciplinar Rota Norte”, responsável por transmitir e guardar comunicados da facção.
“Metralha”, também identificado como “Salsicha”, tem o batismo anotado em 10 de dezembro de 2018, também na Penitenciária de Dois Irmãos do Buriti. A planilha informa como “últimas faculdades” a unidade de Dois Irmãos e a Máxima, referência ao complexo penitenciário de Campo Grande. A cidade de origem aparece como Rio Verde de Mato Grosso, enquanto a “quebrada atual” é São Gabriel do Oeste. O registro combina ingresso no presídio, circulação por unidades e posterior vinculação territorial a outro município.
Máxima e o Pavilhão 2A
O EPJFC, conhecido como Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande, aparece repetidamente nas fichas. Em alguns registros, o local do batismo é descrito como “Máxima PV 2A”, referência ao Pavilhão 2A da unidade. O relatório relaciona integrantes desse espaço a funções que não ficam restritas ao interior do presídio. Um dos cadastrados teria sido batizado no Pavilhão 2A em julho de 2017 e aparece posteriormente ligado a funções como “Disciplina PV 2A”, “Geral Regional Norte” e “Geral da Capital”. Outro integrante tem o ingresso registrado no mesmo pavilhão em outubro de 2016. Sua ficha menciona passagens por Naviraí, Máxima e Gameleira, além de funções internas ligadas ao Pavilhão 2A e ao chamado “Geral dos Caixas MS”, setor associado à administração financeira da organização. As anotações não explicam como essas promoções ou mudanças eram decididas e não demonstram que toda pessoa recolhida nesses pavilhões integrava a facção.
Dourados e Naviraí
A Penitenciária Estadual de Dourados também ocupa espaço importante no relatório. “Fronteira” aparece com batismo registrado em 28 de dezembro de 2017, no campo descrito como “PAK PED RDD”. A referência aponta para a PED e para o setor de RDD. O histórico penitenciário indicava que ele estava preso na unidade no período anotado na ficha. O cadastro relaciona sua trajetória a Mundo Novo e Dourados. A PED volta a aparecer em relatórios anexados ao processo. Em um deles, investigadores afirmam que presos apontados como integrantes ou simpatizantes eram mantidos em pavilhões ou celas de convívio com pessoas da mesma facção, sob a justificativa de evitar confrontos com grupos rivais. O documento, porém, não prova que a administração penitenciária favorecesse recrutamentos.
A Penitenciária de Segurança Máxima de Naviraí surge tanto como local de custódia quanto como ponto da trajetória de integrantes vinculados ao Cone Sul. “Beiço”, também registrado como “Don Ruan” e “Leo”, não aparece como batizado em Naviraí. Seu ingresso teria ocorrido em Mundo Novo, quando estava em liberdade. A ficha registra passagens ligadas a Fátima do Sul, Eldorado e Naviraí. Posteriormente, ele aparece em funções como “Geral do Interior de MS”, “Salveiro da Disciplinar Regional Conesul” e “Disciplinar Conesul”. O processo registra que ele foi recolhido na unidade de Naviraí e, em período posterior, transferido para a Penitenciária Estadual de Dourados.
Além das unidades maiores, as fichas citam outros pontos do sistema penitenciário, como o Centro Penal Agroindustrial da Gameleira, o Presídio de Trânsito e estabelecimentos de regime aberto ou semiaberto. Essas unidades aparecem no campo das “últimas faculdades”, criando um histórico resumido da passagem do integrante pelo sistema penal. A informação interessava à facção porque permitia saber onde a pessoa havia estado, com quais grupos poderia ter convivido e em que situação prisional se encontrava.
A ligação entre dentro e fora das grades também aparece na descrição das funções de “Disciplina” e “Geral”. Segundo o documento, integrantes que ocupam essas posições acompanham membros e simpatizantes em liberdade, recebem orientações de lideranças presas e repassam informações. O relatório cita episódio em que suspeitos de tentar furtar uma agência bancária teriam dito que a ordem partiu de lideranças da facção que estavam presas. O registro é apresentado pela acusação como outro exemplo da capacidade de comando exercida a partir das unidades penais.