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Zelensky devolve condecoração polonesa

Por Diário de Goiânia · · 5 min de leitura

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, devolveu à Polônia a Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração estatal do país. A devolução ocorreu depois que o presidente polonês, Karol Nawrocki, decidiu retirar a honraria em meio a uma disputa sobre a memória da Segunda Guerra Mundial.

A condecoração havia sido concedida a Zelensky em 2023 pelo então presidente Andrzej Duda, em reconhecimento a serviços prestados à segurança, à resiliência e à defesa dos direitos humanos. A crise foi deflagrada depois que Kiev decidiu batizar uma unidade militar ucraniana em homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano, conhecido pela sigla UPA. A organização paramilitar atuou nas décadas de 1940 e 1950 e é acusada pela Polônia de massacres contra poloneses durante a guerra.

Em uma publicação nas redes sociais, Zelensky afirmou que a Ordem da Águia Branca havia sido entendida por Kiev como uma homenagem ao povo ucraniano e às Forças Armadas do país. “Acreditávamos que a Ordem da Águia Branca, concedida em 2023, era destinada ao povo ucraniano e ao nosso exército. Foi isso que foi dito na época. Hoje, enviei a Ordem de volta ao presidente da Polônia”, escreveu Zelensky. “Acredito que o futuro confirmará o respeito que os ucranianos merecem.”

A mensagem publicada por Zelensky na rede social X foi acompanhada de fotos da condecoração e de um comprovante postal indicando que ela seria enviada ao gabinete presidencial polonês. No texto, o presidente ucraniano também reagiu ao argumento de Nawrocki de que a Ordem da Águia Branca simboliza a mais alta confiança da República da Polônia.

“Ontem, o presidente da Polônia observou que a Ordem da Águia Branca não é uma condecoração comum. É um símbolo da mais alta confiança da República da Polônia. Representa um vínculo especial com o Estado polonês e a gratidão especial do povo polonês. Um símbolo assim exige não apenas mérito, mas também respeito pelos valores que formam a base da nossa comunidade”, escreveu Zelensky. “Portanto, se for considerado que esse símbolo especial pode permanecer com Catarina II, Benito Mussolini e Gerhard Schröder, então nós, na Ucrânia, não vamos discutir isso.”

Nawrocki justificou a retirada da honraria após Zelensky assinar, em 26 de maio, um decreto que batizou uma unidade das Forças de Operações Especiais da Ucrânia em referência à UPA. Para o governo polonês, a decisão de Kiev foi considerada ofensiva à memória das vítimas polonesas. “Para a esmagadora maioria da sociedade polonesa, a UPA continua sendo, acima de tudo, uma formação responsável pelos crimes brutais cometidos contra cidadãos da República da Polônia durante a Segunda Guerra Mundial”, afirmou Nawrocki, em vídeo divulgado no site oficial da Presidência polonesa. O presidente polonês classificou a decisão ucraniana como “ultrajante”, “incompreensível” e “profundamente decepcionante”.

Apesar da tensão diplomática, Nawrocki afirmou que a retirada da condecoração não afetará o apoio da Polônia à Ucrânia na defesa contra a invasão russa. A Polônia tem sido uma das principais aliadas de Kiev desde o início da guerra, acolhendo centenas de milhares de refugiados ucranianos e funcionando como um importante centro logístico para a ajuda enviada ao país.

Na publicação, Zelensky disse que a Ucrânia continuará grata à Polônia pelo apoio e permanecerá aberta ao diálogo sobre os pontos de divergência histórica. “A Ucrânia é grata ao povo polonês por seu apoio e cooperação, que desempenham um papel significativo na luta pela nossa e pela sua independência em relação à Rússia”, afirmou. “A Ucrânia permanecerá aberta a todos os formatos significativos de engajamento com a Polônia, a fim de tentar evitar interpretações conflitantes dos capítulos difíceis e dolorosos do nosso passado compartilhado e garantir o devido respeito a todas as vítimas inocentes do século XX.”

Zelensky também destacou que a Ucrânia continuará a se defender da agressão russa. “A Ucrânia continuará a se defender nesta guerra desencadeada pela Rússia, e sem dúvida alcançaremos uma paz digna”, escreveu. “Tenho orgulho do nosso povo e de CADA guerreiro ucraniano, dos milhões de homens e mulheres ucranianos que merecem respeito inquestionável pelo heroísmo que o povo ucraniano demonstrou ao se defender da agressão russa.”

A decisão de Nawrocki provocou reações em Kiev. Autoridades ucranianas anunciaram que também devolverão honrarias estatais concedidas pela Polônia, em sinal de solidariedade a Zelensky. Kyrylo Budanov afirmou no Telegram que a decisão do presidente polonês foi “um ato hostil contra o nosso povo” e “um presente para o agressor, Moscou, que certamente o usará contra ambos os nossos países”. Nem todos na Ucrânia, porém, apoiaram a devolução das condecorações. O ex-primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk escreveu no X que uma “decisão prejudicial e incorreta do atual presidente da Polônia não pode ser corrigida por outras decisões incorretas da nossa parte”.

A controvérsia reacende uma ferida histórica sensível nas relações entre Polônia e Ucrânia. Muitos ucranianos veem a UPA como uma força que lutou pela independência do país contra o Exército Vermelho soviético, a Alemanha nazista e autoridades polonesas. A bandeira vermelha e preta do grupo é usada com frequência por tropas ucranianas na linha de frente. A Polônia, por outro lado, acusa a UPA de ter promovido um genocídio de cerca de 100 mil poloneses étnicos na Volínia, atualmente parte da Ucrânia, entre 1943 e 1945. Em 2016, o Parlamento polonês reconheceu os crimes cometidos pela organização como genocídio. Os ucranianos afirmam que formações armadas dos dois lados, incluindo a UPA e forças clandestinas polonesas, participaram de ataques e represálias que deixaram grande número de civis mortos.

A disputa ocorre em um momento delicado. A Polônia deve sediar, na próxima semana, um grande evento sobre a reconstrução da Ucrânia no pós-guerra, com expectativa de presença de Zelensky. A Ucrânia também iniciou nesta semana, em Luxemburgo, a primeira fase das negociações para adesão à União Europeia. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, rival político de Nawrocki, pediu que os dois líderes evitem ampliar a crise. “A linha de frente está em outro lugar”, escreveu Tusk nas redes sociais na sexta-feira à noite, ao afirmar que a disputa entre Polônia e Ucrânia “alegra Putin e choca os nossos aliados”. Tusk também pediu a Zelensky e Nawrocki que “acalmem as emoções e não alimentem as tensões”.

Nos últimos meses, Polônia e Ucrânia vinham registrando avanços nas discussões sobre a exumação de vítimas polonesas. Uma reunião entre os presidentes dos dois países em Varsóvia, em dezembro, havia sido vista como sinal de progresso no processo de reconciliação histórica.

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