Wagner admite relação e reclamou a Lula de ação da PF
O ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou em entrevista à Folha que reclamou ao presidente Lula sobre a atuação da Polícia Federal na operação da qual foi alvo. Ele criticou especialmente a divulgação de uma foto com cédulas de moeda estrangeira apreendidas no apartamento onde mora em Brasília.
"Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta", disse Wagner. Para ele, a ação violou a orientação do ministro André Mendonça, do STF, que determinou que a busca e apreensão ocorresse "de forma discreta" pelo "caráter sigiloso da investigação".
Na entrevista, concedida em seu escritório político na Bahia, Wagner afirmou desconhecer governador ou prefeito que não se relacione com empresários. Ele classificou como ridículo supor que o recebimento de dois convites para um show configure favorecimento. "Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?", questionou.
Wagner revelou que os valores pagos pelo Banco Master para a empresa de sua nora são maiores do que os R$ 3,5 milhões divulgados e defendeu que o dinheiro tem origem legal. Ele também admitiu pegar carona com empresários, mas negou que tenham colocado um avião à sua disposição. "Está se tentando criar uma retórica hipócrita. Tenho relação com uma porção de gente. Aí o cara diz para mim: 'terça-feira eu estou indo para Brasília, quer ir de carona?' Eu vou, qual o problema?", afirmou.
O senador explicou sua decisão de se afastar da liderança do governo após conversa com Lula. "Ele disse que me conhecia há 48 anos, mas que construíram uma história que eu teria que desmontar e questionou se eu teria cabeça para fazer as duas coisas [a defesa e a liderança]. Então, decidi me afastar", relatou.
Sobre a operação, Wagner disse que a PF está desrespeitando ordem judicial e reinventando a Lava Jato. "A ordem do André Mendonça fala explicitamente para não ter fotografias. Eles foram ao quarto de hotel onde eu moro, botaram lá em cima da cama [notas de dólares e euros] com o escudinho [da PF] e fotografaram", afirmou.
O senador negou ter omitido do presidente a negociação de um apartamento. "Pretendia dar um presente para minha filha nesse prédio que está em construção. A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção?", questionou. Ele afirmou que não tem relação comercial com Augusto Lima ou com o Master e que conheceu Vorcaro apenas duas vezes.