Vídeo de Michelle contra Flávio: tiro saiu pela culatra?
O ataque direto de Michelle Bolsonaro (PL) ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em dois vídeos divulgados na quarta-feira (24/5), "caiu como uma bomba" na pré-campanha do enteado ao Palácio do Planalto, conforme reconhecem os próprios bolsonaristas. O episódio é visto como um movimento calculado na disputa pelo espólio político do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A reação de lideranças bolsonaristas e o monitoramento da repercussão da briga nas redes sociais indicam que a ex-primeira-dama também sofreu desgaste. Parte do campo bolsonarista entende que ela expôs questões internas e prejudicou as chances de derrotar o PT em outubro.
Por outro lado, há quem veja um saldo positivo para a ex-primeira-dama fora do núcleo duro bolsonarista. Para Carolina Althaller, diretora executiva do Instituto Update, o episódio mostra uma clara "disputa de poder dentro do mesmo campo" que não pode ser resumida a uma "briga de família". "No curto prazo, ela sai com capital político elevado, sem se colocar formalmente como candidata, e com a narrativa de quem foi desrespeitada mesmo sendo leal. Para sua base feminina evangélica, esse frame é muito poderoso", analisa.
Michelle foi apontada como possível candidata à vice-presidente numa chapa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), antes de Flávio ser lançado ao Palácio do Planalto, com apoio do pai. A expectativa é que ela concorra ao Senado pelo PL no Distrito Federal. Pesquisas de intenção de voto a colocam na liderança, com mais de 30% das intenções. Como presidente do PL Mulher, ela é vista no partido como liderança carismática e importante ativo junto ao público feminino conservador.
Nos vídeos contra Flávio, que somam 27 minutos, Michelle respondeu às cobranças para se empenhar no apoio à pré-candidatura do enteado. Ela disse ter recebido uma "punhalada" dele no ano passado, quando a família Bolsonaro viveu uma crise em torno das articulações políticas para as eleições no Ceará.
Enquanto Flávio defende que o PL apoie Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado, visto como opção mais competitiva para derrotar o atual governador Elmano de Freitas (PT), Michelle diz que essa aliança seria uma traição. Ela apoia a pré-candidatura do bolsonarista Eduardo Girão (Novo). Michelle disse ainda que, em novembro passado, o senador a "maltratou" e tratou seu apoio como algo "insignificante".
Em resposta, Flávio divulgou um texto em suas redes sociais se desculpando. "Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil", escreveu. A publicação de Flávio provocou mais uma declaração de Michelle. "Para ficar claro: eu não tenho raiva de ninguém. Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada", escreveu a ex-primeira-dama em seu Instagram, na quinta-feira (25/6). Ela afirmou ainda que todos vão trabalhar juntos "para derrotar o atual desgoverno".
Segundo monitoramento do instituto Quaest, o assunto gerou 580 mil mensagens no Instagram, TikTok e X entre 20h de quarta-feira até 12h do dia seguinte. "Desse total, 42% das publicações defenderam Flávio e criticaram a postura de Michelle, argumentando que ela não deveria expor conflitos pessoais durante a campanha eleitoral. Por outro lado, 31% manifestaram apoio à ex-primeira-dama", apontou a Quaest.
Outro monitoramento, realizado pela AP Exata Inteligência, mostrou que o episódio ajudou Flávio a recuperar o percentual de menções positivas nas redes sociais. Segundo postagens monitoradas no Instagram e no X até 14h30 de sexta-feira (26/6), as menções positivas ao senador subiram de 32% para 38,44% após o episódio. O sentimento de confiança associado a Flávio também avançou, passando de 11,63% para 13,9%.
"A leitura é que Flávio capturou a reação defensiva da base bolsonarista, que o enquadrou como vítima da exposição pública do conflito e ajudou a reduzir o desgaste do episódio", disse à BBC News Brasil o CEO da AP Exata, Sergio Denicoli. O levantamento mostra ainda que os vídeos da ex-primeira-dama chegaram a 18 milhões de visualizações e elevaram sua presença no debate presidencial de 5% para 20,9% das menções entre os nomes monitorados. O aumento de exposição, porém, não rendeu impacto positivo. As menções positivas recuaram de 46,5% para 46,11%, enquanto a confiança passou de 18,2% para 17,9%.