Papiamentu: língua crioula de Curaçao em perigo?
No último domingo, durante a partida entre Alemanha e Curaçao pela primeira rodada do grupo E da Copa do Mundo, os 185 mil habitantes da ilha caribenha vibraram com o gol do meia Livano Comenencia aos 21 minutos do primeiro tempo. O empate durou apenas 17 minutos, até a Alemanha marcar mais seis gols, igualando a goleada histórica sobre o Brasil em 2014.
Curaçao se tornou a menor nação a participar de um Mundial, superando a Islândia. A ilha também carrega uma história multicultural e um fenômeno linguístico chamado papiamentu.
A origem do idioma remonta a 1499, quando o espanhol Alonso de Ojeda descobriu a ilha. O território ficou sob domínio espanhol até 1633, quando passou ao controle dos Países Baixos. Após perder regiões no norte do Brasil em 1654, a Holanda transformou Curaçao em centro de tráfico negreiro nos séculos XVII e XVIII.
O professor Marco Neves, da Universidade de Lisboa, descreve o papiamentu como uma língua "pidgin" ou de contato. O idioma surgiu da interação entre espanhóis, holandeses e populações escravizadas da África. A nova língua uniu holandês, espanhol e o crioulo cabo-verdiano, com forte influência do português. Cerca de 85% do vocabulário tem base hispânica, 5% vem do holandês, 5% do português, além de influências do inglês.
O papiamentu é uma língua crioula, termo relacionado à palavra "criação". Segundo Marco Neves, a capacidade associativa do cérebro humano permite unir tantas influências linguísticas. "O cérebro humano consegue aceitar palavras do holandês, do português, do espanhol e criar um todo coerente", afirma o pesquisador.
Uma pesquisa de 2023 da Universidade de Utrecht mostrou mudanças no uso do idioma. Na década de 1980, cerca de 80% das famílias em Aruba usavam o papiamentu em casa. Em 2010, esse índice caiu para 68,3%, enquanto o espanhol cresceu de 3% para 13,5%, impulsionado pela migração recente.
O estudo indica que pessoas com maior escolaridade tendem a usar o holandês com mais frequência. Há uma sensação de inferioridade associada ao papiamentu em comparação ao holandês e ao espanhol. No entanto, os dados mostram que o papiamentu continua sendo o idioma mais usado em diferentes faixas etárias e níveis socioeconômicos. As atitudes em relação à língua são positivas, sendo considerada importante para a alfabetização e preservação cultural.
Novas gerações que chegam às ilhas aprendem o idioma com facilidade. Para a população, manter a língua oficial é uma forma de afirmação de identidade e ressignificação histórica, transformando marcas do passado colonial em coesão social.