Mercado questiona máquina de Bitcoin de Saylor
O modelo de negócios que inspirou empresas brasileiras como Méliuz (CASH3) e OranjeBTC (OBTC3) a acumular Bitcoin em caixa começa a enfrentar questionamentos no mercado global. Nas últimas semanas, analistas passaram a discutir os riscos da estratégia adotada pela Strategy (M2ST34), companhia do guru cripto Michael Saylor, que se tornou a maior detentora corporativa da criptomoeda no mundo.
Um relatório da casa de análise Fintrender acrescenta novos elementos ao debate ao avaliar em quais circunstâncias a empresa poderia deixar de ser uma das maiores compradoras de Bitcoin do mercado e se transformar em vendedora. O estudo também analisa quais os impactos para os investidores tanto nas ações das empresas, quanto no preço do criptoativo.
A discussão ganhou força após a Strategy realizar sua primeira venda de Bitcoins desde 2022. A operação foi pequena, de 34 BTCs, diante do tamanho de sua posição. O episódio chamou atenção por contrariar uma das teses mais associadas a Saylor: a de comprar e nunca vender. Hoje, a Strategy possui cerca de 846,8 mil Bitcoins, equivalente a aproximadamente 4% de toda a oferta da criptomoeda em circulação.
A mudança de percepção começou a ganhar força a partir desse episódio. Reportagens da imprensa financeira passaram a discutir não apenas o tamanho das reservas da companhia, mas a sustentabilidade do modelo criado por Saylor. O Financial Times destacou questionamentos sobre a dependência crescente de emissões de ações e papéis preferenciais para financiar novas compras de Bitcoin. O The Wall Street Journal chamou atenção para o ritmo mais lento das aquisições recentes e para o aumento do custo de captação da empresa.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a Fintrender não aponta uma ameaça de insolvência. A preocupação está na estrutura que permitiu à empresa acumular uma posição tão expressiva. Ao longo dos últimos anos, a Strategy financiou compras de Bitcoin por meio da emissão de ações, dívida e papéis preferenciais, transformando o acesso ao mercado de capitais em combustível para ampliar suas reservas.
O relatório vai na mesma direção dos questionamentos levantados em Wall Street. Em vez de focar no preço do Bitcoin, a empresa concentra a atenção na capacidade da Strategy de continuar acessando capital em condições favoráveis. A avaliação é que a empresa permanece longe de qualquer cenário de insolvência, mas sua estratégia depende da manutenção do interesse dos investidores pelos instrumentos financeiros emitidos pela companhia.
Segundo a Fintrender, o risco surgiria caso essa capacidade de captação comece a perder força. Alguns dos papéis preferenciais emitidos pela companhia passaram a negociar abaixo de seus valores de referência, alimentando dúvidas sobre a disposição dos investidores em continuar financiando novas emissões. Nesse cenário, a empresa poderia ser obrigada a buscar outras formas de cumprir compromissos financeiros, incluindo a venda de parte de seus Bitcoins.
Essa preocupação também apareceu em análises recentes da Fortune e do Financial Times sobre os papéis preferenciais lançados pela companhia. Parte dos investidores passou a questionar se a Strategy conseguirá manter indefinidamente uma estrutura baseada em novas captações para financiar compras adicionais de Bitcoin.
O temor não é que uma queda do Bitcoin leve a Strategy à falência, mas que a principal fonte de demanda corporativa pela criptomoeda perca sua capacidade de continuar comprando. Para a Fintrender, a questão central é que a mesma estrutura que ajudou a transformar a companhia em uma das maiores compradoras de Bitcoin do planeta pode, em determinadas circunstâncias, fazer o caminho inverso.
O debate também lança luz sobre empresas brasileiras que seguem caminhos semelhantes, ainda que em escala muito menor. Diferentemente da Strategy, a Méliuz mantém operações em outras frentes de negócio. A OranjeBTC está longe de possuir uma estrutura de financiamento comparável à da companhia americana. Ainda assim, o avanço dessas estratégias faz com que investidores passem a olhar não apenas para a quantidade de Bitcoin acumulada, mas também para a forma como essas posições são financiadas.
As dúvidas em torno do modelo começaram a aparecer nos preços dos ativos ligados à estratégia. Negociadas na Nasdaq, as ações da Strategy (MSTR) acumulam desvalorização de 30% no ano. Os BDRs, recibos de ações negociados na B3, caem 35%, impactados pelo câmbio. No mesmo período, os papéis da OranjeBTC recuam 38%. Já os da Méliuz têm valorização de 7%. O Bitcoin, por sua vez, cai 26% de janeiro a junho.
A pergunta que começa a circular em Wall Street é simples: o que acontece quando a maior compradora de Bitcoin do mundo já não consegue continuar comprando? Em um cenário extremo, quando ela precisar vender? Por enquanto, essa hipótese parece um pouco distante. É justamente a possibilidade de que a maior fonte corporativa de demanda por Bitcoin se transforme em oferta que passou a chamar a atenção dos investidores.