Maria Bethânia 80 anos: a radical do próprio movimento
Maria Bethânia completa 80 anos neste 18 de junho. Após seis décadas de carreira, a cantora segue como uma figura singular na cultura brasileira. Ela construiu uma trajetória sem se prender a movimentos ou modismos da indústria musical.
Pés descalços, cabelos soltos e gestos dramáticos marcam sua presença de palco, onde música, poesia e devoção se misturam. Bethânia sempre conduziu a carreira com base nos próprios critérios. Não aderiu completamente ao tropicalismo, movimento do qual seu irmão Caetano Veloso foi líder.
No livro "Verdade Tropical", Caetano descreve o "individualismo feroz" da irmã e sua resistência a compromissos coletivos. No documentário "Doces Bárbaros", ao ser perguntada sobre sua identificação com algum gênero, Bethânia respondeu: "Nenhum. Sou meio à margem. Eu prefiro ser fiel a mim."
A cantora começou a carreira no teatro. Em 1965, substituiu Nara Leão no espetáculo "Opinião" e ganhou projeção nacional com a música "Carcará", que se tornou símbolo de resistência à ditadura militar. Mais tarde, ela evitou cantar a canção por anos para não ser reduzida ao rótulo de cantora de protesto.
Sua relação com a indústria fonográfica sempre foi marcada pela inflexibilidade. Bethânia canta o que quer e grava apenas o que considera digno de seu repertório. Mesmo com o sucesso de "Álibi" (1978), que vendeu mais de 1 milhão de cópias, ela não mudou sua direção artística para agradar ao mercado.
A cantora também se destacou por divulgar a literatura em português. Apresentou ao público textos de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa. Sua espiritualidade, marcada pelo sincretismo entre o catolicismo de sua mãe e o candomblé, sempre influenciou sua arte.
Nos últimos anos, Bethânia fez uma turnê de estádios com Caetano Veloso. Em 2025, celebrou 60 anos de carreira com um show especial. No mês passado, cantou ao lado de Shakira para uma plateia lotada na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Discos como "Mel" (1979), "As Canções que Você Fez para Mim" (1993) e "Brasileirinho" (2003) mostram sua versatilidade. Mais recentemente, "Meus Quintais" (2014) e "Noturno" (2021) reafirmaram a importância da poesia em seu trabalho.
A fama de artista exigente a acompanha há décadas. Em entrevista ao documentário "Maria - Ninguém Sabe Quem Sou Eu" (2022), Bethânia disse: "Eu sou infernalmente ligada em mim. Ou seja, eu não me dou paz. Me vigio o tempo todo." Ela afirma precisar de pessoas que compreendam sua maneira de trabalhar.