Irmão de suspeito é transferido após chamada de vídeo
A disputa por territórios em Rio das Pedras, na Zona Sudoeste do Rio, entre milicianos e traficantes do Comando Vermelho (CV), provocou uma movimentação no sistema penitenciário. Na última sexta-feira, um dia após nove paramilitares terem deixado a milícia para supostamente integrar o CV, a Subsecretaria de Inteligência Penitenciária identificou indícios de uso de comunicação ilegal envolvendo três custodiados suspeitos de ligação com grupos paramilitares, entre eles Gerlan Anacleto de Oliveira, de 32 anos.
Por medida de segurança, o trio foi transferido do Presídio Bandeira Stampa, no Complexo de Gericinó, para a Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino (Bangu 1), unidade de segurança máxima também localizada no Complexo de Gericinó. Postagens em redes sociais com fotos dos três suspeitos indicam que eles teriam usado um telefone para fazer chamadas de vídeo para fora da cadeia. A suspeita é de que o fato tenha relação com a disputa de territórios em Rio das Pedras. A Secretaria de Estado de Polícia Penal (Seppen) confirmou a transferência, mas não informou se algum telefone foi encontrado na cela.
Citado em nove processos na Justiça, Gerlan é apontado em um deles, que apura a morte de um mototaxista na comunidade, como um dos chefes da milícia de Rio das Pedras. Ele é irmão de Kauan de Oliveira Teles, de 26 anos, suspeito de ser chefe de um grupo de nove homens que teriam deixado a milícia para atuar ao lado do CV na tentativa de controlar territórios atualmente em poder de paramilitares.
Na última quinta-feira, um tiroteio entre os dois grupos rivais provocou o desvio de dez linhas de ônibus na região. Um coletivo foi sequestrado a mando de paramilitares para ser usado como barricada. Kauan é considerado foragido da Justiça, com prisão preventiva decretada pela 3ª Vara Criminal por um homicídio e duas tentativas de homicídio. O Globo não localizou as defesas dos irmãos.
A favela de Rio das Pedras, berço da milícia, é alvo de tentativas de invasão do CV há mais de dois anos. Na região do Itanhangá e de Jacarepaguá, o grupo criminoso já tomou territórios como Tijuquinha, Morro do Banco, Muzema, Anil e Gardênia Azul. Na última quinta-feira, a disputa se intensificou com a troca de lado de nove paramilitares, gerando forte tiroteio e o sequestro de um ônibus. No dia seguinte, novos tiroteios desviaram 12 linhas de ônibus da Avenida Engenheiro Souza Filho.
Após reforço policial no sábado, policiais do 18º BPM trocaram tiros com homens armados na localidade do Caranguejo. Três suspeitos morreram, um foi preso e um adolescente foi detido. O grupo é suspeito de integrar o CV. Foram apreendidos dois fuzis, duas pistolas e cinco granadas. Na madrugada desta segunda-feira, novos tiros foram trocados, sem feridos ou presos.
Segundo a polícia, o plano do CV é formar um cinturão no entorno da Floresta da Tijuca e, para isso, precisaria tomar Rio das Pedras, que facilitaria fugas. A comunidade tem 55 mil habitantes e é uma importante fonte de recursos para a milícia, com estimativa de arrecadação de R$ 2 milhões por mês com serviços como TV a cabo, internet e taxas de segurança. A ordem para invadir territórios foi dada por Edgard Alves de Andrade, o Doca, integrante da cúpula do CV. O plano de reocupação territorial do Governo do Estado priorizará as comunidades da Gardênia Azul, Muzema e Rio das Pedras, conforme determinação do STF.