Guerra no Irã: destruição com ganhos políticos
Com a assinatura do memorando de entendimento entre EUA e Irã, na semana passada, teve início o prazo de 60 dias para que os dois lados cheguem a um acordo que toca em temas sensíveis, como o programa nuclear iraniano, a navegabilidade no Estreito de Ormuz e o cenário de segurança regional. Nem todos ficaram satisfeitos: Israel não quer suspender sua ofensiva no Líbano, e a oposição interna acusa o premier, Benjamin Netanyahu, de transformar o país em um protetorado.
Em entrevista ao GLOBO, Danny Zahreddine, professor da PUC Minas e autor de “O Oriente Médio: Velhos e Novos Conflitos”, destaca a posição de força dos iranianos nas conversas, e como o presidente dos EUA, Donald Trump, se pôs em uma posição complexa ao apostar todas suas fichas no sucesso do plano, mesmo que às custas de velhas alianças no Oriente Médio.
Zahreddine afirma que o resultado final do acordo deve ficar próximo do que estava previsto no acordo nuclear de 2015, rasgado pelo mesmo Trump, mas com algumas diferenças. "Como um pedágio um pouco maior ao Irã, algo entre 10, 15 anos de não enriquecimento de urânio. Mas as condições, no todo, são bem melhores para os iranianos, porque estão falando, por exemplo, de liberar alguns ativos que estão congelados desde a Revolução Islâmica", disse.
O especialista avalia que, embora não haja confiança mútua entre os negociadores, será possível obter um acordo porque o Irã deu um "xeque-mate". "Ele criou uma condição, usando sua geografia, usando um sistema defensivo único que deixou os americanos em uma sinuca de bico. A guerra foi destrutiva para os iranianos, mas deu resultados do ponto de vista político", afirmou.
Sobre a posição dos EUA, Zahreddine diz que o sucesso dos americanos foi reabrir o Estreito de Ormuz, que estava aberto antes da guerra. "Na verdade, não houve sucesso, mas sim fracasso, e em meio a uma dança à beira do abismo. Eles vão dizer que o Irã foi enfraquecido, que se comprometeu em jamais ter uma arma nuclear, que a Marinha está acabada e o Exército devastado", explicou.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse na quinta-feira que Israel deveria parar com o que chamou de "chilique" sobre o memorando. Para Zahreddine, a fala foi impressionante e confirma que as negociações são a única saída que os americanos têm. "Eles não querem voltar para a guerra, e precisam de uma saída minimamente honrosa", completou.
Sobre Israel, o especialista avalia que o maior perdedor desse protocolo de intenções é o país, que não alcançou nada do que Netanyahu prometeu. Ele vê a possibilidade de Israel tentar sabotar o sucesso continuando a atacar o Líbano. "O Líbano é o pomo da discórdia, um país que se transformou no elemento que pode dar legitimidade a vários atores", disse.
Trump mencionou um possível papel da Síria para combater o Hezbollah no Líbano. Zahreddine acredita que Trump não consegue controlar Netanyahu, mas acha que pode controlar o presidente sírio, Ahmed al-Sharaa. "A experiência dos sírios com a atuação do Hezbollah na Guerra Civil Síria e a memória da Guerra Civil Libanesa mostram que isso não daria certo", afirmou.
As monarquias árabes do Golfo foram puxadas à revelia para a guerra e terão que lidar diretamente com o Irã. Zahreddine lembra que a relação dos países sunitas do Golfo com o Irã foi antagônica por 30 ou 40 anos, e a guerra mostrou que isso não funcionou.