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Eleição colombiana fortalece modelo Bukele na região

Por Diário de Goiânia · · 3 min de leitura

A vitória do advogado Abelardo De La Espriella, um populista de direita, sobre o candidato de esquerda Iván Cepeda nas eleições colombianas do domingo, 21, reflete o encantamento do eleitorado conservador com propostas mais duras para combater a violência na América Latina, segundo analistas ouvidos pelo Estadão. Esse modelo foi inaugurado na região pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Especialistas apontam que o sucesso desse discurso se deve à desilusão dos eleitores com a direita tradicional e à globalização de cartéis criminosos no continente, que passaram a atuar em mais de um país. De la Espriella foi o candidato mais votado no primeiro turno, com 43,7%, ultrapassando Cepeda e a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia. Ele usa um discurso similar ao de Bukele, com foco em segurança pública e coerção contra a criminalidade.

Segundo Eduardo Mello, vice-diretor do Departamento de Relações Internacionais da FGV, a vitória de Espriella foi uma surpresa, mas é efeito da insatisfação com as políticas de Gustavo Petro e com a posição da direita tradicional no combate à criminalidade. “A bandeira forte da direita historicamente sempre foi a ideia da mão dura no combate a guerrilhas radicais. Isso tem saído do holofote da direita tradicional em meio ao processo de paz na Colômbia”, explica.

Isso abre espaço para que novos políticos contestem o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), lançado no governo de Juan Manuel Santos e impulsionado por Petro, que propôs a “Paz Total” com dissidentes da guerrilha e com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Hoje, os dois grupos atuam na região de Catatumbo, perto da fronteira com a Venezuela, e são responsáveis por um novo pico de violência no país.

Mello destaca o papel do tráfico internacional na crise de insegurança. “É um fenômeno relacionado à globalização do crime, porque os grupos criminosos estão alcançando mercados que trazem recursos que eles nunca tiveram antes”, diz. Esse processo afeta países como Chile e Costa Rica, que tradicionalmente têm criminalidade menor. O Chile elegeu o “outsider” José Antonio Kast em 2025.

Um exemplo da internacionalização do crime é a gangue venezuelana Tren de Aragua, que já atua no Brasil. Outros são o PCC e o CV, que atuam em países vizinhos como Paraguai e Bolívia, além dos cartéis colombianos que se infiltraram no Equador. O modelo de El Salvador chama a atenção na região devido às baixas taxas de homicídio, que chegaram a 1,3 caso por 100 mil habitantes em 2025, segundo o governo salvadorenho.

Os dados, no entanto, são questionados, já que o país não revela o número de mortes de supostos criminosos em ações policiais. Mariana Chies-Santos, professora do Insper e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, aponta a falta do devido processo legal e acesso a julgamento dos encarcerados como pontos problemáticos do plano de Bukele. Antes mesmo da vitória de Espriella, o modelo Bukele já vem sendo adotado em outros países, como Costa Rica e Equador.

Pedro Dallari, professor de Relações Internacionais da USP, explica que os países latino-americanos têm diferenças estruturais, mas um pano de fundo comum é a sensação de que as alternativas comuns se tornaram incapazes de resolver problemas de desigualdade, dívida, vulnerabilidade social e segurança pública. Em meio a crises, “começam a surgir alternativas chamadas de outsiders e a vontade de respostas mais rápidas e diferentes das anteriores”, conclui.

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