Católicos ultraconservadores crescem no Brasil
A cena é muito diferente das que se repetem nas manhãs de domingo em milhares de igrejas católicas pelo Brasil. Em uma pequena capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, o silêncio solene é quebrado por sinos e incenso. O padre, de costas para os fiéis, celebra a missa em latim por cerca de uma hora, com os olhos voltados para o altar.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma congregação ultraconservadora que rejeita as reformas modernizantes do Concílio do Vaticano 2º, realizado entre 1962 e 1965. O grupo mantém o rito tridentino, em latim, e não aceita mudanças como a missa em idioma local. Fundada em 1970 na Suíça pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a congregação foi alvo da mais severa punição da Igreja Católica em 1988: a excomunhão de seu fundador, após ele nomear quatro novos bispos sem autorização do papa João Paulo 2º.
Apesar da punição, o movimento cresceu e se internacionalizou. No Brasil, a FSSPX ganhou força nos últimos 20 anos, impulsionada pelo avanço de correntes conservadoras entre católicos brasileiros. A entrada no país ocorreu por meio de um grupo de fiéis que rompeu com a Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, após esta se reconciliar com o Vaticano em 2002.
Atualmente, a congregação está presente em 14 capelas em quatro regiões do Brasil, incluindo cidades como São Paulo, Curitiba, Cuiabá e Fortaleza. A expansão levou o grupo a anunciar a nomeação de novos bispos para o próximo dia 1º de julho, na cidade suíça de Écône. O Vaticano, no entanto, já avisou que a medida será interpretada como ruptura formal e resultará em nova excomunhão.
Para o historiador Vinícius Couzzi Mérida, especialista em Ciências da Religião, a excomunhão é um evento raro. Ele afirma que a situação reflete o choque entre tradição e modernidade que marcou o catolicismo após o Concílio do Vaticano 2º. Na época, mais de 40 mil padres deixaram o sacerdócio, e muitos entenderam que a Igreja passava por uma ruptura.
O rito e os fiéis
Na missa da Vila Mariana, os bancos estavam lotados e fiéis se amontoavam de pé nas laterais e escadas. A maioria não precisava dos livrinhos de tradução disponíveis na entrada. Mulheres e meninas usavam saias longas e lenços de renda para cobrir os cabelos. O padre, com vestes vermelhas e douradas, conduziu a cerimônia de costas para a assembleia, como no período medieval.
A FSSPX continua a desafiar a Santa Sé. O grupo acredita que a Igreja pós-concílio se afastou da tradição. Apesar das punições, a congregação mantém uma base fiel de seguidores, que veem na missa em latim e nos rituais antigos uma forma de preservar a fé.