A teledramaturgia no Brasil, um dos principais produtos culturais do país, está passando por uma mudança significativa. Nos últimos anos, o protagonismo negro, que antes era raro e frequentemente associado a estereótipos, está ganhando destaque nas narrativas televisivas.
Atualmente, a inclusão de atores e atrizes negros em papéis centrais e complexos não é apenas uma questão de cumprimento de cotas ou uma tentativa de evitar críticas. Essa transformação é essencial para que a televisão represente a verdadeira diversidade da população brasileira, que se autodeclara em mais de 55% como negra, seja preta ou parda. Por muitos anos, a televisão retratou uma imagem distorcida da sociedade, ignorando a presença significativa da comunidade negra nas histórias.
Os papéis frequentemente atribuídos a atores negros eram limitados e giravam em torno de funções subalternas, como empregadas domésticas ou motoristas. Essa representação restrita reforçava a ideia errada de que o Brasil teria superado o racismo, enquanto, na realidade, a vivência da população negra era invisibilizada.
Recentemente, houve um avanço importante na representatividade. Personagens negros agora ocupam papéis de relevância, como advogados, empresários e estilistas, o que ajuda a mostrar a complexidade das experiências negras. Para a atriz Jessica Ellen, por exemplo, ver meninas negras na tela ao crescer foi fundamental. Ela cita Taís Araújo como uma de suas referências e ressalta que essa representação é uma inspiração para as novas gerações.
O movimento negro no Brasil tem uma longa trajetória de luta por reconhecimento e contra a marginalização nas mídias. Protestos por representatividade remontam a décadas passadas, e embora tenha havido progressos desde 2022, um marco importante será em 2024, quando todas as novelas da Globo terão protagonistas femininas negras, reconhecendo assim a diversidade real do país.
É fundamental que a escalação de atores negros vá além da simples presença, garantindo que esses personagens desempenhem papéis centrais e que suas histórias sejam bem desenvolvidas. Atores como Gabz, Bella Campos e Taís Araújo estão contribuindo para essa mudança ao interpretar personagens robustos e inspiradores.
Entretanto, é importante que a narrativa não caia em novos estereótipos ou despersonificação da identidade negra. A ascensão de atores negros na teledramaturgia deve exigir o mesmo respeito e oportunidades já concedidos a atores brancos.
Esse movimento em direção à diversidade é uma conquista social e um reflexo da conscientização crescente. O futuro da teledramaturgia deve ser a consolidação dessa mudança, para que a diversidade se torne a norma. Os personagens devem ser apresentados como tão complexos e humanos quanto a própria sociedade que representam, permitindo que a realidade da população negra entre nas casas brasileiras de forma natural.
A narrativa das novelas deve sempre dialogar com o público. É uma evolução necessária que busca mostrar o Brasil em toda sua diversidade. Independentemente da cor, todos são seres humanos com direitos e deveres iguais, e isso é uma função importante da dramaturgia, que continua sendo um dos produtos de entretenimento mais consumidos no país.