Sidarta Ribeiro, professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), está promovendo uma reflexão sobre a importância dos sonhos na vida das pessoas. Com mais de 20 anos dedicados ao estudo dos sonhos, Ribeiro acredita que devemos redescobrir a capacidade de sonhar de nossos ancestrais e valorizar o que acontece enquanto dormimos. Para isso, ele lançou a exposição “Sonhos — História, Ciência e Utopia”, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, que ficará aberta até 27 de abril.
Segundo Ribeiro, a sociedade atual enfrenta uma crise relacionada aos sonhos. Ele afirma que muitas pessoas têm sonhado de maneira negativa, recorrendo a medicamentos para dormir e, em muitos casos, transformando suas vidas em pesadelos. Em sua visão, os sonhos são uma janela para nosso interior, oferecendo insights sobre nossas decisões e a forma como vivemos.
Sem uma conexão ativa com os sonhos, perdemos a capacidade de receber mensagens importantes que o inconsciente tenta nos transmitir. Ribeiro argumenta que os sonhos são um espaço vital para resolver problemas e gerar novas ideias. Ele relaciona essa desconexão à falta de valor que a sociedade contemporânea dá ao mundo onírico, o que, segundo ele, contribui para crises atuais.
Ribeiro tem uma perspectiva mais ampla sobre os sonhos. Ele enfatiza a importância do contato com culturas indígenas, que mantêm viva a sabedoria sobre a vida onírica. Para ele, a ciência deveria ter uma “bússola moral” e não se tornar um instrumento de destruição. Ele cita pensadores indígenas que defendem a necessidade de um envolvimento mais profundo com a natureza e com o próximo.
Os sonhos, segundo Ribeiro, não são apenas experiências individuais, mas também coletivas, refletindo os desejos da comunidade. Ele menciona um livro que estuda os sonhos dos yanomamis, ressaltando que esses momentos oníricos podem unir as pessoas e promover saúde social. Além disso, os sonhos desempenham um papel importante no sono e na regulação emocional. A fase REM, onde ocorre a maior parte dos sonhos, é crucial para a recuperação emocional.
A falta de sono adequado e a privação do sonho REM têm efeitos negativos na saúde emocional. Ribeiro observa que a irritabilidade e a falta de paciência se espalham entre as pessoas, criando um ambiente de mal-estar generalizado. Por isso, ele defende que é essencial cultivar hábitos saudáveis de sono e evitar a dependência de medicamentos.
Embora muitos ainda optem por medicamentos para dormir, Ribeiro alerta que esses produtos podem não oferecer um sono reparador. Ele discute a diferença entre o sono natural e o induzido por drogas, que pode prejudicar a limpeza de toxinas do cérebro, aumentando o risco de doenças como Alzheimer.
Além disso, Ribeiro fala sobre o uso de substâncias naturais, como a cannabis e a ayahuasca, enfatizando a importância do respeito pelas culturas que as utilizam. Ele critica a apropriação cultural e a medicalização excessiva, defendendo o potencial das plantas medicinais tradicionais sem perder seu contexto cultural.
O professor também menciona a relação entre ciência e espiritualidade, ressaltando que muitas pessoas se beneficiam de crenças religiosas, especialmente em momentos de dificuldade. Essa conexão pode promover a saúde mental e um sono melhor.
Atualmente, Ribeiro está trabalhando em novos projetos, incluindo um livro que explora a evolução dos arquétipos mentais ao longo dos anos. Ele também está conduzindo pesquisas que avaliam a importância do sono para as emoções e o desenvolvimento infantil.
Ribeiro convida todas as pessoas a visitarem a exposição “Sonhos — História, Ciência e Utopia”. Ele deseja que os visitantes possam apreciar a ancestralidade dos sonhos e contrastar essa sabedoria com os desafios atuais, incentivando uma valorização do mundo interior em meio ao frenesi da vida moderna.
