Na saída de um prédio de jornal em Lisboa, uma escritora estava atrasada para o lançamento de seu livro. Ao chamar um táxi, pediu para sentar no banco da frente, com o intuito de usar o espelho do carro para se maquiar durante o trajeto, que estava lento naquele dia.
Assim que entrou no carro, a escritora abriu sua nécessaire cheia de maquiagens e também um sanduíche que levara. Enquanto se arrumava e mastigava, estava em conversa com sua editora pelo celular, quando o taxista a observou e perguntou se ela era famosa. Ela respondeu que não, esclarecendo que escritores nem sempre são reconhecidos. O taxista, no entanto, citou autores conhecidos como Fernando Pessoa e José Saramago, e a escritora concordou que esses realmente tinham grande popularidade.
O taxista compartilhou sua admiração pelos aforismos de Saramago, mencionando que às vezes ele pensava em frases cheias de sabedoria, mas não anotava, resultando em muitos pensamentos perdidos. Ele fez uma piada sobre ser um “gênio desperdiçado” e ambos riram juntos.
Curiosa, a escritora perguntou se ele sonhava com essas frases. Ele respondeu que não, mas revelou ter um sonho recorrente que sempre se repetia da mesma forma. Ao ouvir isso, ela realmente começou a prestar atenção nele. O taxista falou que seu sonho era perturbador: ele sonhava com um homem pela metade, na calçada, sangrando e pedindo ajuda. Ele tentava socorrê-lo, mas sempre algo o impedia de chegar até o homem.
Intrigada, a escritora indagou se o homem sempre aparecia da mesma forma. Ele confirmou e comentou que havia pesquisado na internet sobre o significado de vários sonhos, mas não encontrou nada que explicasse o que ele vivenciava.
Ouvindo suas palavras, a escritora, se sentindo à vontade, perguntou sobre a saúde dele. Ele disse que estava bem, mas que se sentia triste. Revelou que havia perdido sua irmã há mais de um ano, que estava doente e acabou fazendo uma cirurgia complexa. Ao conversar, ele tocou seu próprio tronco, como se estivesse lembrando da perda. Parecia refletir sobre o fato de não ter conseguido ajudar a irmã quando ela mais precisou.
Após um silêncio, a escritora compartilhou seu próprio sonho recorrente. Ela contou que sonha frequentemente em voltar à cidade onde morou durante a juventude, na tentativa de rever os amigos. No entanto, sempre acabava correndo, ansiosa, e nunca conseguia encontrá-los. O taxista, olhando para sua nécessaire e o sanduíche pela metade, pareceu perceber algo importante.
Num momento de intimidade, ambos refletiram sobre como as situações às vezes estão bem diante de nós, mas não conseguimos vê-las claramente.
Logo, chegaram à livraria onde seria o lançamento. Ao abrir a porta do táxi, a escritora sentiu que haviam compartilhado um momento significativo. O taxista, antes de se despedir, desejou que tudo desse certo no evento. Ela o olhou nos olhos e retribuiu o desejo, esperando que tudo também desse certo para ele.
